Entrevista Especial com: SÉRGIO MARQUES

 

 

São raríssimos os entrevistados que nos rende uma boa entrevista, que respondem nossas indagações com vontade e que não titubeiam em responder com veemência nossos questionamentos. E, é exatamente esse o caso do entrevistado especial de hoje do “No Mundo dos Famosos”. Ele é um grande escritor de novelas, mas a modéstia dele me condena chamando de exagero (risos), porém, é nítido o imensurável talento dessa fera da nossa teledramaturgia, afinal as melhores novelas tiveram a contribuição desse gênio. Minha “Entrevista Especial” é com o querido novelista SÉRGIO MARQUES.

 

“Não acho que exista crise na teledramaturgia. A não ser naquele sentido chinês, tão repisado que já ficou surrado, mas que aqui cabe perfeitamente, de obstáculo e oportunidade. Oportunidade que, me parece, a teledramaturgia vem aproveitando. Vem melhorando, para competir e para sobreviver. E vai continuar melhorando. E sobrevivendo.”

 

(Sérgio Marques)

 

Jéfferson Balbino: Sérgio, quando e como você se descobriu escritor?

 

Sérgio Marques: Eu quis ser escritor pela primeira vez muito criança, quando acabei de ler o primeiro livro da minha vida – que foi, como provavelmente o de dezenas de milhões de outras crianças, “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. Desisti no início da adolescência, quando me disseram que quase nenhum escritor brasileiro vivia de ser escritor. Até depois dos 30 anos, quando descobri que era possível, sim, ser escritor profissional, pelo menos na TV...

 

Jéfferson Balbino: Lendo sua biografia eu soube que você começou a trabalhar na TV Globo em 1984 como analista de texto. Como funcionava seu trabalho?

 

Sérgio Marques: A Ângela Carneiro (que já trabalhava nisso bem antes de mim, e que hoje, e já há muito tempo, também é escritora profissional) e eu líamos os projetos apresentados à TV Globo, tanto por autores da própria empresa quanto por free-lancers, fossem simples ideias ou histórias, argumentos, sinopses para novelas, minisséries, seriados, ou mesmo roteiros já desenvolvidos. E preparávamos pareceres, que eram encaminhados às instâncias decisórias da Globo. Era apenas uma primeira leitura. Mas esse período foi utilíssimo para mim (e penso que para a Ângela também) para nos familiarizar com a linguagem característica do texto de televisão.

 

Jéfferson Balbino: Como surgiu a oportunidade pra você colaborar no remake da novela “Selva de Pedra” (TV Globo/1986)? E o que você acha que faltou na trama pra conquistar o imenso sucesso que a versão original, escrita por Janete Clair em 1972, conquistou?

 

Sérgio Marques:Em 1985, quando a TV Globo organizou a Casa de Criação Janete Clair, os analistas de texto passaram a trabalhar lá, com escritores como Dias Gomes, Ferreira Gullar, Euclydes Marinho, Doc Comparato, Joaquim Assis, Antônio Mercado e outros. A convivência com os escritores (e o aprendizado com eles) se tornaram muito mais intensos. Ainda em 85/86, quando começou a ser preparado o remake de “Selva de Pedra”, Dias Gomes me indicou para colaborar com a equipe. Foi minha primeira colaboração em novela. A atualização de “Selva de Pedra” foi extremamente fiel à original. Talvez tenha sido fiel demais. Telenovela (como TV em geral) tem muito a ver com o momento que se vive. Penso que hoje, provavelmente, uma adaptação como aquela seria mais livre, mais preocupada em refletir a atualidade – a atualidade... de cada momento. Em suma, torná-la tão atual em 2013 quanto Janete a fez em 72.

 

Jéfferson Balbino: Como é a responsabilidade de ter que escrever novela para todas as classes sociais?

Sérgio Marques: Numa palavra – enorme. A responsabilidade é enorme. E a dificuldade também. Mas a gente se acostuma. E... é bom.

 

Jéfferson Balbino: Você é autor das duas únicas novelas da TV Globo que foram gravadas totalmente antes de irem ao ar: “Pacto de Sangue” (TV Globo/1989) e “Salomé” (TV Globo/1991). De quem foi à ideia de produzir integralmente as respectivas novelas antes de estreá-las? E porque você acha que ainda não vingou?

 

Sérgio Marques: “Pacto de Sangue” e “Salomé” não foram inteiramente pré-gravadas. “Pacto de Sangue”, de fato, teve talvez mais da metade de seus capítulos gravados antes de entrar no ar. “Salomé”, não; seguiu o padrão normal de antecedência das novelas da Globo. (Houve, sim, a intenção de gravá-la previamente, mas não foi realizada, pela habitual pressão das circunstâncias mesmo, que pautaram a exibição para antes do inicialmente previsto.) Não tenho certeza, mas creio que a ideia da pré-gravação possa ter sido do Herval Rossano, diretor de ambas as novelas, que me disse na ocasião que tinha tido essa experiência no exterior, creio que no Chile, com bons resultados. Talvez não seja realmente bom nem gravar tudo antes de exibir, nem escrever tudo antes de ver o que já tiver sido realizado. Porque a novela é uma obra aberta. Há interação. Menos, talvez - ao contrário do que é comum pensar -, porque o público cobre mudanças em determinadas passagens da obra, ou as rejeite (embora isso exista também, certamente). Mas sobretudo porque, para os autores especialmente, é importante ver como os diretores, os atores, a equipe toda de realização trabalham o material escrito – e a partir daí reciclar, ajustar, frequentemente encontrar novos caminhos.

 

Jéfferson Balbino: Como você lida com o isolacionismo da sua profissão?

 

Sérgio Marques: Acho que lido bem. Tenho tido relacionamentos muito bons, dentro das equipes de trabalho de que tive a sorte de participar, de modo que o isolamento não é tão grande – mesmo que não exista aquele convívio físico quotidiano da maioria das situações de trabalho (aliás, o trabalho em casa me parece que é hoje muito mais comum, em diversas áreas, do que quando comecei a escrever profissionalmente). E, claro, depois de tantos anos, estou acostumado. Com sinceridade, não me sinto isolado, não.

 



Escrito por jéfferson às 22h24
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Entrevista Especial com: SÉRGIO MARQUES

 

Jéfferson Balbino: Você também foi colaborador da maravilhosa novela “O Dono do Mundo” (TV Globo/1991) que trazia ao público uma mocinha que luta por sua justiça, algo semelhante ao que vimos recentemente na novela “Avenida Brasil” (TV Globo/2012). Porém, ao contrário do ocorrido na trama de João Emmanuel Carneiro onde o público aprovava a conduta moral da protagonista vingativa, na novela “O Dono do Mundo” houve certo estranhamento ao espirito lutador e vingativo da protagonista Márcia (Malu Mader). Você acha que o público das telenovelas evoluiu?

 

Sérgio Marques: Certamente acho que o público evoluiu. Não só o público – o país, o mundo, nós todos. Em 91, é bem possível que o público de novelas ainda quisesse soluções mais românticas para as tramas. Que fugisse um pouco de certas realidades – conhecidas, porém nem menos duras por isso. O Dono do Mundo foi uma novela dura, de certo modo. Botou o dedo na ferida. Mostrou a crueldade, a indiferença, o desprezo por quem era menos afortunado, com muito poucos disfarces, atenuando muito pouco o lado mais feio da vida. Hoje, acredito que mais gente esteja mais disposta a encarar esse “lado feio” de frente. Até para mudá-lo, no que puder. 

 

Jéfferson Balbino: Na novela "O Dono do Mundo", ao longo da trama, o personagem Felipe Barreto (Antônio Fagundes) vai se humanizando, o que leva a crer que ele realmente se regenerou, porém, na reta final da trama a Marcia (personagem brilhantemente interpretada pela Madu Mader) descobre que ele continua o mesmo cafajeste de sempre, e que está apenas fingindo. Vocês chegaram a cogitar a possibilidade do Felipe chegar ao final da novela como um vilão regenerado, praticamente um mocinho ao lado da heroína da novela? Ou sempre foi tendenciosa essa mudança de caráter do Felipe até pra resgatar a audiência da novela que havia se assustado com o caráter cruel do personagem do Fagundes?

 

Sérgio Marques: A aparente "regeneração" do Felipe Barreto sempre esteve prevista, está na sinopse (aliás, é parte essencial da espinha dorsal da novela), e não teve nada a ver com qualquer tentativa de resgatar audiência. Quanto a ele estar fingindo... bom, a alternativa existia, mas, se estava decidida desde o início, ou não... melhor você perguntar ao Gilberto [Braga].

 

Jéfferson Balbino: Ainda falando em “O Dono do Mundo” o que você destacaria da novela e do seu trabalho nela?

 

Sérgio Marques: Para mim, importante em “O Dono do Mundo” foi justamente a coragem de ensaiar uma crítica incisiva, sem muitos meios-tons, a realidades da sociedade. Ainda que tenha sido recebida com estranheza na época, quem sabe se não abriu caminhos a outras críticas mais profundas, posteriores? Quanto à minha participação pessoal, lembro-me basicamente de me sentir muito integrado à equipe, não destacaria particularmente uma contribuição pessoal minha. Ainda assim, recordo com carinho cenas que escrevi (pela primeira vez) com a grande Glória Pires, com quem tive o enorme prazer de trabalhar muitas vezes depois. E, bom... também foi a primeira vez em que escrevi para Fernanda Montenegro, não preciso dizer mais nada, preciso?...

 

Jéfferson Balbino: Em 1992, você colaborou na minissérie “Anos Rebeldes” (TV Globo/1992) que foi uma minissérie que entrou pra História do Brasil ao abordar em seu enredo a luta contra o regime militar brasileiro, e foi exibida num momento crucial que o país atravessava. Você considera a minissérie como a inspiração ao manifesto dos ‘caras pintadas’?

 

Sérgio Marques: Não. Acho que as coisas aconteceram mais ou menos ao mesmo tempo, não uma como inspiração da outra. O movimento dos caras pintadas teve, em minha opinião, um papel decisivo no processo que levou ao impeachment do então presidente Collor. A exibição, no mesmo momento, de “Anos Rebeldes” pode ter sido uma feliz coincidência – no sentido de que, para quem a assistiu, pode ter inflamado a vontade, principalmente dos jovens, dos estudantes, de participar ativamente da vida política do país, como havia ocorrido nos 60. Mas é o que ela era: uma reflexão sobre aquela rebeldia, não uma conclamação à luta contra o governo nos 90. Entretanto, se ajudou em alguma coisa na mobilização popular, e especialmente estudantil, de 92... ótimo.

                                   

Jéfferson Balbino: Que lembranças você tem do seu trabalho na autoria da minissérie “Contos de Verão” (TV Globo/1993)?

 

Sérgio Marques: Como você sabe, “Contos de Verão” não foi tão bem recebida. Apesar disso, para mim foi uma boa experiência. A minissérie é uma história original de Domingos de Oliveira, que teve roteiro final do Roberto Farias (que também a dirigiu), e meu. Só trabalhar com esses dois nomes históricos da dramaturgia brasileira (no caso do Domingos, com o material que ele havia criado, ainda que não em parceria pessoal direta) já valeu. Além disso, eu pessoalmente gostava da história. Nem tudo de que a gente gosta o público gosta igualmente, ou nenhum de nós erraria nunca. Paciência. Não dizem que se aprende mais com as dificuldades do que com os êxitos?

 



Escrito por jéfferson às 22h23
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Entrevista Especial com: SÉRGIO MARQUES

 

 

Jéfferson Balbino: Em Janeiro/2011 eu entrevistei o Gilberto Braga onde eu pedi a ele pra avaliar o desempenho da novela “Pátria Minha” (TV Globo/1994) e ele fez a seguinte avaliação: “Até mais ou menos o capítulo 100 foi muito bem. Depois, degringolou, tivemos problemas demais fora da novela.”. Quais foram esses problemas ocorridos fora da novela a que ele se refere?

 

Sérgio Marques: O problema básico foi a fratura, num acidente, do braço de Vera Fischer – protagonista feminina da novela. Até aí – de fato, mais ou menos 90 ou 100 capítulos – “Pátria Minha” vinha sendo um grande sucesso. Mas nesse momento tivemos que não só reescrever muitos – muitos – capítulos, como até regravar outros já prontos. Não preciso lhe dizer o problema que é um protagonista sair de cena, por um tempo razoável, de repente, bruscamente. Isso acabou comprometendo de fato o desenvolvimento da novela. Degringolou mesmo, de certo modo. Ainda assim, deixou heranças respeitáveis: o tratamento em novela do tema das pessoas que (num momento difícil do país) optavam por deixá-lo; o desempenho da própria Vera, do Tarcísio e do José Mayer; a participação especial (especialíssima) de Patrícia Pillar (que tive o prazer de reencontrar aí, depois dela ter sido a heroína de “Salomé”); a reafirmação dos talentos jovens de Cláudia Abreu e de Fábio Assunção... Um bocado de coisa boa. Muito boa.

 

Jéfferson Balbino: Você prefere escrever para vilões ou para mocinhos?

 

Sérgio Marques: Na verdade... Nem para um nem para outro. Prefiro personagens menos “chapados”, menos unidimensionais. Gosto de “vilões” cujas razões sejam fortes, verdadeiras, entendidas pelo espectador – ainda que gerem reações (dos vilões) distorcidas. E gosto de “mocinhos” que tenham fraquezas, vacilações de caráter. Que, como costumamos dizer, “se sujem”, pelo menos em parte, e pelo menos em alguns momentos das tramas – que não sejam tão “bonzinhos” o tempo todo... 

 

Jéfferson Balbino: Em 1998, você foi colaborador da magnifica minissérie “Labirinto” (TV Globo). Você acredita que as minisséries, por serem um produto televisivo de alta qualidade, deformaram um pouco a telenovela, tornando seu público mais exigente?

 

Sérgio Marques: Não. Penso que tanto as minisséries quanto as novelas (e os demais produtos de TV – seriados, especiais) evoluíram. E se aperfeiçoaram. As minisséries têm um ritmo, uma dinâmica (e também um grau de aprofundamento nos temas, até por causa do horário de exibição), diferentes dos das novelas. Mas não necessariamente uns superiores aos outros. Cada uma tem seu público próprio e seus próprios objetivos, artísticos e de entretenimento.

 

Jéfferson Balbino: A que você atribui o imenso sucesso de público e crítica que a novela “Força de um Desejo” (TV Globo/1999) conquistou?

 

Sérgio Marques: Tanto quanto me lembro, “Força de Um Desejo” foi um projeto ligado a um momento em que a Globo desejava dar um impulso especial ao horário das seis. Por isso se convidaram autores e equipes (e equipes de direção, igualmente) normalmente identificados como “das 8” (hoje seria “das 9”) para fazer novelas nesse horário. Foi assim que Gilberto Braga, Alcides Nogueira e equipe escreveram “Força de Um Desejo”, Glória Perez o remake de “Pecado Capital”. Nós fizemos a novela como faríamos uma das 8, exceto pelas restrições concernentes ao público do horário – muitas crianças, especialmente. E tivemos direção, elenco e equipe em geral compatíveis com essa aspiração. Se deu certo... que bom.

 

Jéfferson Balbino: Você acredita que no futuro, a telenovela brasileira poderá deixar de existir para dar lugar a outros gêneros e formatos?

 

Sérgio Marques: Sim, é possível. Nos EUA, por exemplo, como é de conhecimento geral, os seriados ocupam o lugar, na preferência do público, que as novelas têm no Brasil. (Mas as soap operas continuam a existir, e a fazer sucesso.) Isso vai depender de muitos fatores, inclusive extra-televisivos: o desenvolvimento do país, da TV por assinatura, da internet (e dos downloads de produtos audiovisuais)... A única coisa que me arrisco a sugerir que possa se consolidar como tendência é exatamente a diversidade. Uma oferta ampla de produtos, em diferentes plataformas – e, naturalmente, abrigando diversos formatos. Do filme à novela, do curta-metragem ao seriado – na TV, no cinema, no computador, no smartphone. Acho que serão anos muito interessantes os próximos.

 

Jéfferson Balbino: Que avaliação você faz do seu trabalho nas novelas: “Celebridade” (TV Globo/2003) e “Belíssima” (TV Globo/2005)?

 

Sérgio Marques: Muito positiva, em ambos os casos, ainda que novelas bem diferentes. A relação com as duas equipes foi muito boa, o resultado foi considerado também muito bom; tanto “Celebridade” quanto “Belíssima” foram sucessos. “Celebridade” vai me deixar sempre a lembrança de dois personagens que escrevi bastante, para dois magníficos atores, que são daqueles para quem mais fiz textos, durante meu tempo como escritor profissional, e que tiveram nessa novela acho que cada qual um de seus papéis mais marcantes: a Laura de Cláudia Abreu e o Renato Mendes de Fábio Assunção. “Belíssima”, por outro lado, foi à primeira novela em que colaborei com Sílvio de Abreu (e com Vinícius Vianna; depois, participei, com ambos e com Daniel Ortiz, de “Passione”); e, não posso falar por eles, especialmente pelo Sílvio, autor principal, mas por mim fiquei satisfeitíssimo com a experiência e com a parceria.

 

Jéfferson Balbino: Entre as novelas que você colaborou há alguma em que você ajudou a construir as sinopses?

 

Sérgio Marques: Sim, com certeza: “Salomé”, “O Dono do Mundo”, “Pátria Minha”, “Força de Um Desejo”... A maioria daquelas em que colaborei. 

 



Escrito por jéfferson às 22h22
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Entrevista Especial com: SÉRGIO MARQUES

 

 

Jéfferson Balbino: Você é um dos colaboradores mais renomados da TV Globo, tanto que já assinou alguns trabalhos como autor titular. Tem planos e/ou projetos de escrever outra novela como autor principal?

 

Sérgio Marques: Planos – e até projetos – sim. Certeza de que vou levá-los à frente, ainda não. Depende de muitos fatores além da minha própria vontade. Pergunte-me de novo, digamos... daqui a um ano.

 

Jéfferson Balbino: Quais são as partes mais e menos prazerosas de escrever uma novela?

 

Sérgio Marques: Para mim pessoalmente, mais gratificante é participar da criação da história e escrever os diálogos. O que acho menos prazeroso (embora reconheça que é imprescindível) é a parte que poderíamos chamar de “administrativa”: planejar a utilização de cenários, a quantidade de externas etc. Sobretudo numa novela, porque é uma tarefa extremamente complexa e exige um planejamento verdadeiramente minucioso, para tornar possível a realização daquilo que se imagina – com que se sonha – no roteiro escrito.

 

Jéfferson Balbino: Com o nosso querido Gilberto Braga você ainda trabalhou nas novelas: “Paraíso Tropical” (TV Globo/2007) e “Insensato Coração” (TV Globo/2011). O que você destacaria dessa parceria de vocês nesse trabalho?

 

Sérgio Marques: “Paraíso Tropical” e “Insensato Coração”, as duas últimas novelas do Gilberto, foram justamente aquelas em que eu entrei atrasado (por causa dos compromissos anteriores respectivamente com “Belíssima” e com “Passione”). Por isso mesmo, participei menos da criação das histórias, apenas opinei sobre as sinopses. Ainda assim, pessoalmente gostei muito das experiências. Em “Paraíso Tropical”, talvez particularmente, em relação ao desfecho da história policial (a revelação dos crimes de Olavo, o grande Vágner Moura). Em “Insensato Coração”, sobretudo as tramas em torno de Norma – Glória Pires, a quem e ao prazer de trabalhar com quem já me referi – e de Léo, Gabriel Braga Nunes, para quem nunca havia escrito antes (mas que já admirava como ator), e que foi, para mim, uma excelente primeira parceria. 

 

Jéfferson Balbino: E que importância o nosso querido Gilberto Braga tem na sua carreira de novelista?

 

Sérgio Marques: Imensa. O Gilberto me convidou a primeira vez a colaborar com ele na minissérie “Anos Rebeldes” – em 1990, embora a elaboração do texto tenha sido interrompida, e retomada, e exibido o programa, apenas em 92. Isso justamente porque “O Dono do Mundo” teve a estreia antecipada para 91. Foi à primeira novela dele em que colaborei. Depois, vieram “Pátria Minha”, “Força de Um Desejo”, “Celebridade”, “Paraíso Tropical”, “Insensato Coração” – além da minissérie “Labirinto”. Isso, portanto, numa colaboração contínua de 1990 até 2011, mais de vinte anos. E foram, ou têm sido, vinte anos em que eu aprendi todo o tempo, fiz coisas de que me orgulho muito, ganhei autoconfiança, creio que de certo modo posso dizer que me firmei como escritor de profissão. A importância do Gilberto no que eu possa ter feito profissionalmente foi simplesmente imensa.

 

Jéfferson Balbino: Recentemente eu entrevistei o Vinicius Vianna, onde perguntei a ele, se nas tramas enigmáticas e repletas de suspenses como foram: “Belíssima” (TV Globo/2006) e “Passione” (TV Globo/2010) toda a equipe de roteiristas das respectivas novelas tiveram acesso à ‘chave’ dos mistérios dessas tramas ou se esse direito só foi concedido ao autor principal, no caso o Silvio de Abreu... Ele me afirmou que não sabia! E você Sérgio Marques teve acesso aos mistérios?

 

Sérgio Marques: O Sílvio é realmente bastante reservado. Não gosta de revelar os seus segredos antes da hora. (Aliás, eu também não gosto.) Mas as tramas fundamentais – sobretudo aquelas que era preciso conhecer, para escrever adequadamente a sua preparação – ele partilha. Só aos necessários, e só no momento em que é necessário. Mas aí partilha. E o Vinícius pode ter feito jogo duro com você, porque ele sempre soube tanto quanto eu. Possivelmente, fez jogo duro para que, numa próxima, você não fique perguntando a ele se os equivalentes da Bia Falcão ou do Totó morreram mesmo. Aliás... vou seguir o exemplo dele. Também não sei de nada não, viu, Jéfferson? Nem adianta perguntar, porque eu nunca sei de nada sobre o fim das novelas. Principalmente das próximas (risos).

 

Jéfferson Balbino: Por falar em “Passione”, você também deve ter escrito pra grande dama da dramaturgia brasileira, a atriz Fernanda Montenegro, que interpretava a protagonista Bete Gouveia. Como era a sensação de ver esse mito dar vida ao seu texto?

 

Sérgio Marques: Já me referi a isso ao responder sobre “O Dono do Mundo”, que foi na verdade a primeira vez em que escrevi para a extraordinária Fernanda. Naquela época – vou confessar pela primeira vez –, no primeiro capítulo que escrevi, fiz o capítulo inteiro antes de tomar coragem para escrever as falas da Fernanda. Esse medo não melhorou tanto assim, não. Ainda tremo um pouco antes de escrevê-las – como em “Belíssima” e em “Passione”. Mas exatamente a sensação de ver uma das melhores atrizes do mundo (numa lista pequena das melhores), dizendo as frases que você escreveu, me dá, ao lado do sentimento de realização, a confiança de continuar escrevendo – e com imenso prazer, sempre. Respondi à sua pergunta?!

 



Escrito por jéfferson às 22h21
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Entrevista Especial com: SÉRGIO MARQUES

 

 

Jéfferson Balbino: Atualmente as novelas não conseguem mais registrar aquela imensa audiência que conquistava antigamente. Você acredita que esse fato possa ser um indício de crise na teledramaturgia?

 

Sérgio Marques: Não. Acho que simplesmente o público brasileiro (e o do mundo, a rigor) encontrou opções. Especificamente o brasileiro talvez mais do que o de outros países, porque a condição econômica da população brasileira melhorou. Há, como já havia, o teatro, o cinema, a leitura. Mas há também, como não havia, o DVD, a TV por assinatura, a internet. A TV continua sendo, como antes se dizia que era o cinema, a maior diversão. Mas há outras. Há mais escolha, mais alternativas. E a competição é boa. Para todos. Melhora a qualidade da TV, do cinema, do teatro. Não acho que exista crise na teledramaturgia. A não ser naquele sentido chinês, tão repisado que já ficou surrado, mas que aqui cabe perfeitamente, de obstáculo e oportunidade. Oportunidade que, me parece, a teledramaturgia vem aproveitando. Vem melhorando, para competir e para sobreviver. E vai continuar melhorando. E sobrevivendo.

 

Jéfferson Balbino: Seu último trabalho em novelas foi na colaboração de “Cheias de Charme” (TV Globo/2012). O que você ressaltaria do texto dos estreantes autores titulares: Filipe Miguez e Izabel de Oliveira?

 

Sérgio Marques: Como praticamente toda a crítica (com a qual a reação do público parece que demonstrou concordar), achei a estreia do Filipe e da Izabel brilhante. Uma história envolvente, com elementos clássicos do folhetim – amores contrariados, preconceito social, luta por um lugar ao sol, vitória romântica dos justos... e ao mesmo tempo inovadora, ousada. Primeiro porque, creio que de forma inédita, colocou em destaque como heroínas as empregadas domésticas. E colocou logo três protagonistas. Que funcionaram perfeitamente, alternando o protagonismo de acordo com as variações da trama. Além disso, foi um semi-musical – também com grande êxito. E, por fim – como disse na resposta anterior -, flertou abertamente com as novas mídias, lançando até elementos importantes da história, ao mesmo tempo, na TV e na internet. Tudo com enormes aceitação e sucesso. Brilhante.

 

Jéfferson Balbino: Já sabe quando retornará as novelas?

 

Sérgio Marques: Ainda não. Mas, pela experiência recente... acho que não vai demorar. Eu aviso.

 

Jéfferson Balbino: Antes de finalizarmos a nossa pergunta de praxe: Quais foram as melhores novela que você já assistiu?

 

Sérgio Marques: Acho impossível responder a isso sem cometer omissões. Vou citar quatro, dentre muitas que omitirei, apenas pelo caráter emblemático que essas quatro tiveram, cada uma em seu tempo: “Vale Tudo”, do Gilberto, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères; “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, Aguinaldo, Marcílio Moraes e Joaquim Assis; “Guerra dos Sexos”, do Sílvio, Carlos Lombardi e, no remake, Daniel Ortiz; “Avenida Brasil”, de João Emmanuel Carneiro e equipe. (Claro que, no mínimo por um resquício de elegância, não vou citar nenhuma de que eu tenha participado...).

 

Jéfferson Balbino: Querido, foi uma honra imensa ter você aqui “No Mundo dos Famosos”, saiba que sempre admirei sua belíssima trajetória profissional, parabéns pela carreira brilhante que você construiu. Um grande abraço!

 

Sérgio Marques: Jéfferson, como já lhe disse em e-mail pessoal, você é um pouco exagerado. Mas muito gentil, e excelente entrevistador. Foi um prazer responder. Parabéns e um abração para você também.

 



Escrito por jéfferson às 22h20
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EM BREVE: Entrevista com BENEDITO RUY BARBOSA



Escrito por jéfferson às 22h18
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Ainda Hoje: Entrevista com o novelista SÉRGIO MARQUES



Escrito por jéfferson às 22h16
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