Entrevista Especial com CARLOS LOMBARDI

 

Hoje eu entrevisto aqui “No Mundo dos Famosos” um dos maiores e melhores novelistas do Brasil. Ele já criou personagens e histórias que perpetuaram pra sempre em nosso imaginário, como a Babalu e o Rai da novela “Quatro por Quatro”, a Carlota Joaquina de “O Quinto dos Infernos”, a Rubi de “Kubanacan”, a Maria Bô de “Pé na Jaca”, entre outras... Após uma brilhante carreira de 31 anos na teledramaturgia da TV Globo, esse grande mestre, sobretudo da comédia, dá uma nova guinada em sua vida profissional transferindo-se pra Rede Record, onde a partir da próxima quarta-feira, dia 25 de Setembro, estreará sua nova novela: “Pecado Mortal”. Com uma imensurável honra que eu entrevisto o magistral autor CARLOS LOMBARDI.

“Sobre minha contribuição, espero que seja lembrado no futuro como aquele cara que fazia umas novelas legais e muito agitadas.”

(Carlos Lombardi)

Jéfferson Balbino: Carlos, como e quando surgiu seu interesse pela carreira de novelista?

Carlos Lombardi: Como todo brasileiro, assistia TV, assistia novela. Entrei pra USP pra fazer o curso de jornalismo na ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP. No primeiro ano percebi que o curso de Radio e TV era mais interessante. Eu gostava de escrever e, com o otimismo da juventude, achei que podia escrever pra TV. Acabou pintando uma chance de fazer roteiros para o Telecurso - Segundo Grau e foi assim que começou.

Jéfferson Balbino: Você é graduado em Comunicação pela USP, inclusive chegou a lecionar nessa Instituição. Você chegou a fazer outros cursos mais específicos e complementares pra profissão de roteirista?

 

Carlos Lombardi: Fiz um curso ou outro desses de roteiristas americanos que vem fazer workshops no Brasil. Foram legais – também nada demais.



Escrito por jéfferson às 04h53
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Entrevista Especial com CARLOS LOMBARDI

 

Jéfferson Balbino: Qual é o caminho mais viável pra quem almeja se tornar um escritor de novelas?

Carlos Lombardi: É um caminho complicado hoje em dia porque as empresas cresceram de tamanho e se tornaram mais burocráticas. Acho que a maneira mais viável é procurar as empresas que produzem e tentar o cargo de pesquisador. É uma maneira de entrar devagar, mas entrar no meio.

Jéfferson Balbino: Sua estreia como novelista ocorreu na TV Tupi com a trama “Como Salvar Meu Casamento” (1979). O fato de a trama ter sido cancelada antes do fim devido à crise financeira da emissora fez disso uma experiência inicial traumática na sua carreira?

Carlos Lombardi: Traumática, não. Foi chato, foi triste. Mas a gente sobrevive. E, bem ou mal, foi minha chance de começar em novelas e chamar atenção do mercado. Afinal, a novela foi bem de audiência para as condições complicadas da Tupi na época.

Jéfferson Balbino: E como foi assumir a autoria da novela “O Todo Poderoso” (Band/1979) que era uma trama que já estava em andamento?

Carlos Lombardi: Foi o primeiro conserto que eu fiz. Não ficou ótimo, mas cumpriu o objetivo de elevar a audiência de um projeto que não tinha começado bem. Em  termos de aprendizado técnico, foi ótimo.

Jéfferson Balbino: Sua estreia na TV Globo foi como colaborador na novela “Jogo da Vida” (TV Globo/1981). Como foi escrever para a saudosa e mega talentosa atriz Norma Geraldy nessa trama?

Carlos Lombardi: Ela era uma simpatia. Foi ali que aprendi o que era ser um colaborador, alguém que tenta entrar no universo do autor e servir a ele, fazer o que ele precisa. Novela não é um trabalho coletivo, ela precisa de uma marca forte de autoria. Aprendi bastante com o Silvio em termos de carpintaria e técnica.

Jéfferson Balbino: Que aprendizados você adquiriu com o grande Cassiano Gabus Mendes colaborando com ele nas novelas: “Elas por Elas” (TV Globo/1982) e “Champagne” (TV Globo/1984)?

Carlos Lombardi: “Elas por Elas” fiz inteira. Em “Champagne” entrei com a novela andando pra quebrar um galho. “Champagne” foi uma novela complicada, muito prejudicada pela Censura que vetou uma trama inteira com a novela já no ar. “Elas por Elas” foi uma delícia. Cassiano era muito generoso, me deu muita força. Com ele aprendi a confiar no meu diálogo – ele era um autor brilhante de diálogos e me fez acreditar que eu sabia dialogar bem. Foi fundamental pra eu definir melhor meu estilo. Mario Fofoca é um dos melhores personagens pra quem tive o prazer de escrever.

Jéfferson Balbino: Como foi trabalhar na TV Cultura, onde você escreveu “Maria Stuart” (1982)?

Carlos Lombardi: Era um sufoco. Antônio Abujamra inventou as séries de adaptações tele conto (5 capítulos) e tele romance (20 capítulos ) para tentar absorver um pouco da mão de obra que estava desempregada com a falência da Tupi. Foi um tempo duro, voltei a morar na casa dos meus pais porque a Tupi acabou me devendo vários meses de salário. Foi mais difícil pra gente que tinha filhos pra criar, obrigações. Houve quem perdeu casa, quem se matou. Isso sim foi traumático. Abujamra inventou o projeto e deu chance de trabalho pra muita gente. gostei de fazer, a gente tinha liberdade e era muito estimulado pra ser criativo, ousado. 

Jéfferson Balbino: Juntamente com o nosso querido Silvio de Abreu você fez da novela “Guerra dos Sexos” (TV Globo/1983) um grande marco da teledramaturgia brasileira. Até que ponto foi sua contribuição nesse sucesso? E que avaliação você faz do remake dessa trama?

Carlos Lombardi: Foi um trabalho que adorei fazer, ao qual me dediquei muito.  Mas que fique claro, era uma novela do Silvio, com personagens do Silvio. Minha função era ir me achando, me aproximando dos personagens pra compreender como eles eram na cabeça do Silvio e escrever o mais parecido com ele possível. “Guerra dos Sexos” foi uma novela moderna naquela época, que teve a sorte de começar já com sucesso, o que aumenta a confiança da equipe inteira. Tenho saudades de seus personagens e da escalação original. Confesso que assisti pouco o remake e até porque era difícil pra mim vê-la com um elenco diferente.

Jéfferson Balbino: Como surgiu o convite pra você escrever “Vereda Tropical” (TV Globo/1984) que foi sua primeira novela como autor-títular?

Carlos Lombardi: Quem me convidou foi Mário Lucio Vaz, a pessoa que mais acreditou em mim na Globo – não só naquela vez, mas em várias outras. Pedi ajuda para o Silvio, sabia que precisava de um supervisor, era muita responsabilidade fazer tudo sozinho. Queria o olhar crítico dele, a segurança que ele tinha. Ele pegou minha história e a arredondou, em termos de sinopse, ligou pedaços que estavam separados, deu coerência ao todo. Eu tinha consciência que muita gente ia achar que era mais um trabalho do Silvio, porque trabalhávamos com uma equipe muito parecida com a de “Guerra dos Sexos” e com vários atores da novela. Mas sei que imprimi uma coisa minha numa   novela que era mais romântica e um pouco mais realista que a “Guerra dos Sexos”, era uma coisa mais com a minha cara. A faixa etária dos protagonistas também era mais baixa, refletindo um pouco minha idade e minha visão de mundo. É um trabalho do qual me orgulho muito.

Jéfferson Balbino: Geralmente, a maior audiência vem dos telespectadores das classes C e D. Você considera a opinião do ‘povão’ mais importante que a dos intelectuais?

Carlos Lombardi: O público é o responsável pelo Ibope. Então meu foco é sempre o público.  Crítica boa às vezes faz bem pra vaidade, mas o público é que torna uma novela um sucesso ou não. É pra eles que a gente trabalha. Além de tudo, como sempre fiz novelas para as 19 horas, já entendi que a maior parte dos jornalistas comenta rebatendo os comentários de outros jornalistas, mas é um horário que normalmente estão trabalhando. Consequentemente, assistem pouco. Por isso se apegam a alguns clichês que atribuem a cada autor. Pelos comentários a gente percebe que poucos assistiram mesmo...

Jéfferson Balbino: Sua novela “Bebê a Bordo” (TV Globo/1988) marcou o último trabalho da grande atriz Dina Sfat na Teledramaturgia Brasileira. O que você destacaria da atuação dela?

 

Carlos Lombardi: Tenho saudades e foi uma honra ter Dina trabalhando conosco. Ela deu verdade e ângulos diferentes para uma vilã humana, nada maniqueísta. 



Escrito por jéfferson às 04h51
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Entrevista Especial com CARLOS LOMBARDI

 

Jéfferson Balbino: O que você pode nos dizer sobre a supervisão que o autor Lauro César Muniz deu a você na novela “Perigosas Peruas” (TV Globo/1992)?

Carlos Lombardi: Foi outra experiência didática pra mim. Assim como aprendi com o  Silvio sendo seu colaborador e o tendo como supervisor em “Vereda Tropical” e aprendi trabalhando com Cassiano, aprendi com Lauro. É engraçado porque ele tem uma perspectiva um pouco mais “matemática” da ficção. Foi fundamental ao me ensinar alguns dos rudimentos básicos como o fato de uma novela ter sempre que lidar com expectativas de curto, médio e longo prazo. A gente se vê pouco, mas outro dia mesmo trocamos e-mail’s.

Jéfferson Balbino: Por falar no Lauro, atualmente ele vem mobilizando uma campanha para redução do número de capítulos das novelas, que quase sempre ultrapassa a marca dos 200 capítulos. O autor defende a idéia de produzir novelas com no máximo 120 capítulos com a intenção do trabalho ficar mais artesanal, já que o excesso de capítulos ocasiona um profundo desgaste no autor que acaba delegando funções aos colaboradores descaracterizando a autoria da trama. O que você pensa sobre esse assunto?

Carlos Lombardi: Acho que é possível se fazer novelas mais curtas. Claro que nesse caso temos que ter elencos menores e um número menor de cenários. Acho que esse emagrecimento das novelas seria bom para o gênero. Parte do tamanho que as novelas assumiram em termos de números de cenários, personagens e tramas foi consequência de modificações no jeito de se gravar novela. Hoje em dia se grava mais devagar que nos anos 90. O nível de exigência do acabamento aumentou o que gerou esse tempo a mais. Com isso, você trabalha com várias frentes. Precisa de núcleos paralelos não necessariamente por causa da ficção, mas para ser possível a gravação. Com quatro frentes gravando ao mesmo tempo, uma novela muito centralizada exigiria que o mesmo elenco gravassem 4 frentes todo dia, o que seria desastroso e totalmente impossível. A quantidade de paralelas não é apenas uma invenção dos autores, mas uma adequação à produção. Acredito que novelas mais curtas e que começassem a ser gravadas com mais antecedência permitiria que fizéssemos novelas que fossem mais rápidas, com menos tramas paralelas.

Jéfferson Balbino: Como surgiu a idéia de escrever a novela “Quatro por Quatro” (TV Globo/1994) que é considerada por muitos como sua melhor novela?

Carlos Lombardi: É engraçado, mas Mario Lucio me pediu uma pré-sinopse correndo porque uma novela que ia ser feita caiu, ou seja, a Globo desistiu de fazê-la. Entreguei uma página com 2 plots, o da vingança das 4 mulheres e da disputa de uma menina por 2 pais, o pai biológico e o cara que a criou. Mário aprovou. Aí falei: “Então vou fazer a sinopse. Ele: “Que sinopse, pode sair fazendo capítulo que começa a gravar daqui 15 dias. Foi uma correria. Uma novela que estreou com poucos capítulos escritos, poucos gravados, ficou atrasada o tempo todo e teve 233 capítulos, 9 meses e pouco no ar. Foi exaustivo, sai meio morto, mas foi uma delícia.

Jéfferson Balbino: Você também já escreveu roteiros de alguns longas, qual foi o trabalho cinematográfico que mais lhe marcou?

Carlos Lombardi: Escrevi coisas que nunca foram filmadas. Gostei muito de trabalhar com Cacá Diegues em “Um Trem para as Estrelas”. Como gostei de fazer o roteiro do filme da Angélica: “Zoando na TV”. Outro trabalho que gostei foi “Mais uma Vez Amor”, filme da Rosane Swartman, baseado numa peça dela. Adorei fazer o roteiro, ela me deu toda a liberdade de entortar a peça, remexer, foi muito gostoso!

Jéfferson Balbino: O que faltou pra sua novela “Vira Lata” (TV Globo/1996) se tornar sucesso de público e crítica como as anteriores que você escreveu?

Carlos Lombardi: “Vira Lata” começou errada. O que eu achava charmoso – a mocinha adorar cães e recolhe-los e leva-los pra casa – o público via como uma casa que devia cheirar mal. Acho que a novela também entrou com um tom muito over. Houve alguns problemas de escalação – que eu assumo, cometi erros – de gente boa no papel errado.  No final da exibição do primeiro capítulo eu já sabia que tinha dado errado. Demorei 2 meses pra conseguir achar uma maneira de corrigi-la e a audiência subiu na metade final. Mas com certeza foi minha novela menos bem sucedida. Claro que alguns personagens e algumas cenas estão entre as melhores que eu fiz.

Jéfferson Balbino: Além de novelas, você já escreveu o “Telerromance” (TV Cultura/1982), “Telecontos” (TV Cultura/1982) e “Guerra e Paz” (TV Globo/2007), além de dois episódios do sitcom “A Vida Alheia” (TV Globo/2010) e do programa educativo “Telecurso 2º Grau” (TV Globo/1984). Que avaliação você faz desses formatos de dramaturgia? 

Carlos Lombardi: Adoro seriado. Sempre fui um consumidor de seriados. Se pudesse, tinha ficado fazendo “Guerra e Paz” por uns 3 anos – Claro, se o programa não passasse na sexta-feira as 11:40 da noite. Era uma comédia romântico-policial que gostei muito de fazer. Pretendo voltar ao formato seriado depois de “Pecado Mortal”.

Jéfferson Balbino: Eu que também sou historiador achei incrível a adaptação que você fez sobre a transferência da corte portuguesa para o Brasil através da sua sensacional minissérie “O Quinto dos Infernos” (TV Globo/2002). Como você lidou com as criticas por parte de alguns historiadores brasileiros e portugueses?

Carlos Lombardi: A maior parte achei injustas. Houve quem disse que eu não podia falar da corte portuguesa por ser brasileiro, o que acho no mínimo preconceituoso ou meramente idiota. E algumas das coisas que achavam impossíveis eram justamente as que vinham da pesquisa, acontecimentos reais. Ao mesmo tempo, sei que fiz um D. João engraçado, mas multifacetado, mais inteligente e lúcido que nas adaptações cinematográficas feias sobre os mesmos fatos. D. João não era um tonto que só obedecia os ingleses, essas é uma visão simplificada e simplória da história. Também era um estrategista que teve pelo menos duas grandes ideias – a fuga para o Brasil manteve a família no poder mesmo que a distância. E deixar D. Pedro no Brasil, já avisando que ele deveria declarar Independência se fosse inevitável, foi genial. Ele percebeu que as cortes portuguesas iam querer colocar o gênio de volta a garrafa, iam querer rebaixar o status de Estado-Irmão que o Brasil tinha alcançado e que isso poderia levar a movimentos pela Independência. Deixando D. Pedro, um homem que os brasileiros identificavam como quase-brasileiro, populista e popular, manteve os dois países sob o poder da mesma família. Claro que houve trechos da minissérie que não eram realistas – sempre disse que a relação entre D. Pedro e a Marquesa de Santos da minissérie era mais romântica que a relação real. Mas fui fiel ao espirito dos personagens que descobri na pesquisa e, apesar do tom geral de comédia, foi um trabalho bastante realista. Tive o prazer de falar pela primeira vez numa coisa que não tinha aparecido na TV – e nem era seriamente estudada nos livros de História: A Guerra Civil de Portugal entre D. Pedro e D. Miguel. É, sem dúvida, meu trabalho favorito em toda minha carreira.

Jéfferson Balbino: Tem planos de escrever outra minissérie?

Carlos Lombardi: Agora não, mas é um formato que adoro!

Jéfferson Balbino: Sua novela “Uga Uga” (TV Globo/2000) foi advertida pelo Ministério da Justiça por conter excesso de cenas de violência, inclusive dois capítulos da novela tiveram que ser reeditados para serem exibidos. O Ministério Público também tentou impedir a participação de atores-mirins na trama. Embora tenha ocorridos esses sérios problemas você conseguiu contar a sua história conforme a planejou inicialmente ou teve que mudar o rumo dela?

 

Carlos Lombardi: “Uga Uga”, apesar disso, foi um grande sucesso. Os problemas maiores não foram quando a novela estreou – sempre havia pedidos pra se adequar o tom da narrativa, etc. e tal, mas não foi tão sério quanto pareceu. O problema maior foi o meio da novela. Havia uma autoridade local do Rio de Janeiro que implicou com a bunda do índio – se quiserem saber, sugiro que procurem o psicólogo da figura. “Uga Uga” foi uma das novelas mais leves que escrevi, mas por conta disso foi reclassificada e não pode ser exibida atualmente em reprise no horário livre. Uma grande bobagem com uma novela que é uma variação cômica – e muito bem sucedida – de Tarzan. 



Escrito por jéfferson às 04h49
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Entrevista Especial com CARLOS LOMBARDI

 

Jéfferson Balbino: A propósito o que você pensa sobre a atual Classificação Indicativa na televisão brasileira? Podemos considerar uma nova e disfarçada censura?

Carlos Lombardi: De disfarçada não tem nada. Se a pessoa diz que se você não tirar isto e isto vai proibir a novela para o horário onde ela é exibida, inviabilizando o trabalho, não é Censura disfarçada. É Censura e ponto. Nos anos 90 tivemos ampla liberdade e o mundo não caiu, as crianças não foram pervertidas. As empresas de Televisão são responsáveis e cuidam do que colocam no ar. Essa Censura extra é profundamente anacrônica e desnecessária. Uma novela que não respeite os valores médios da população brasileira não dá certo. Claro que há gente que sempre vai achar tudo muito forte – como sempre teve – mas é uma minoria. O pensamento que precisa haver uma Censura é parente do pensamento de que brasileiro não sabe votar, etc. É dinheiro público jogado no ralo.

Jéfferson Balbino: Quando os atores não seguem fielmente o texto, conforme você escreveu isso lhe desagrada?

Carlos Lombardi: O problema não é alterarem alguma coisa, é inevitável com o ritmo que se grava novela. A questão é que escrevo um diálogo que tem ritmo, métrica, em que uma resposta às vezes deriva exatamente de um verbo usado pela fala anterior. Quando alteram isso, o diálogo degringola. Por isso acho que os atores devem ser cuidadosos na ora de colocarem o caco. Mas irritado mesmo só fico quando percebo algum ator que não vive sem caco, que não sente que fez seu trabalho se não acrescentou algo à fala. É um vício desagradável e que atrapalha a fluência dramática.

Jéfferson Balbino: Que mudanças à teledramaturgia brasileira sofreu ao longo dos anos?

Carlos Lombardi: As novelas se sofisticaram e ficaram mais complicadas. Às vezes para o bem, às vezes para o mal. Acho só que ficaram muito grandes – Muitos personagens, muitas tramas – o que nos fez perder público no exterior. Mas como já disse, isso não é apenas uma opção dos autores, é consequência da sofisticação técnica e do tempo para se gravar. Temos que repensar nossos parâmetros de produção para fazermos novelas mais curtas viváveis e com elenco.

Jéfferson Balbino: Uma das suas novelas que eu mais gostei foi “Kubanacan” (TV Globo/2003), sobretudo da personagem Rubi, que foi interpretada magistralmente pela talentosa atriz Carolina Ferraz. Como você construiu essa personagem? E, que avaliação você faz do desempenho da atriz?

Carlos Lombardi: Gosto muito da Carolina Ferraz. Sempre achei que ela é lida demais para a crítica elogiá-la, mas adorei os trabalhos que fiz com ela. Rubi era uma delícia e ela fez muito, muito bem.

Jéfferson Balbino: Houve alguma dificuldade em ter que substituir o autor Mário Prata na autoria da novela “Bang Bang” (TV Globo/2005)?

Carlos Lombardi: As dificuldades de entrar numa novela no meio, ainda mais uma novela que não funcionava e estava com audiência baixa. Para mim, “Bang Bang” seria um ótimo sitcom, mas não tinha estrutura de novela. Meu trabalho foi colocar um pouco de novela e, principalmente, estancar a queda da audiência. Consegui fazer isso, fui profissional, fiz o que me foi pedido e fiz direito. Claro que agora todo mundo fala que “Bang Bang” foi um fracasso e era uma novela minha, como se o Mário Prata nunca tivesse estido lá. Sacanagem de jornalista, mas fazer o que?!

Jéfferson Balbino: Como você lida com o isolacionismo que a profissão de novelista ocasiona?

Carlos Lombardi: Choramingando bastante. É a pior parte do trabalho.

Jéfferson Balbino: Suas novelas sempre apresentam títulos inusitados como à última trama que você escreveu: “Pé na Jaca” (TV Globo/2007). Como é o processo de criação dos títulos de sua novela?

Carlos Lombardi: A maior parte das vezes conto um resumo da história pra Cris, minha mulher. Ela foi publicitária, sempre foi muito boa para títulos. Ela inventou “Vira-Lata” e “Uga Uga” como títulos. “Quatro por Quatro” foi invenção do Boni, a novela foi tão corrida que nem título provisório consegui inventar. “Kubanacan”, “Pé na Jaca” e “O Quinto dos Infernos” já nasceram na minha cabeça com esses títulos. “Vereda Tropical” foi a partir de um bolero – ou uma guarânia – antiga que e ouvi uma bandinha militar tocar num evento quando justamente procurava um nome pra novela...

Jéfferson Balbino: O que te motivou a trocar a Globo pela Record? E quais são suas expectativas nessa nova fase da sua carreira?

Carlos Lombardi: Queria fazer um drama. Queria fazer uma novela que não fosse obrigatoriamente uma novela das 19 horas. Juntou com a vontade de reencontrar muita gente – Avancini, Boury, Betty Lago, meu editor o PH – que já tinha ido pra Record. Queria mudar meu registro dramático – primeiro para não me repetir, segundo porque está cada vez mais difícil trabalhar para o horário livre com uma reclassificação indicativa cada vez mais militante. Estava na hora de mudar.

Jéfferson Balbino: O que você pode adiantar sobre a história de sua novela na Record: “Pecado Mortal”? Essa novela também seguira o inconfundível estilo ‘Lombardiano’ (comédia, ação, aventura e sensualidade) que tanto nos agrada?

Carlos Lombardi: Segue e não segue. Digo que “Pecado Mortal” tem os mesmos ingredientes de minhas novelas anteriores, mas a mixagem é diferente. Tem mais drama, tanto melodrama como drama policial, mais ação, menos comédia. Mas tem de tudo isso, só num balanço mais chegado no drama.  

Jéfferson Balbino: O que você acredita ser sua maior contribuição ao longo desses 60 anos de Teledramturgia Brasileira? E, quais são suas perspectivas em relação ao futuro da telenovela brasileira?

Carlos Lombardi: Sobre o futuro, não sei. Sobre minha contribuição, espero que seja lembrado no futuro como aquele cara que fazia umas novelas legais e muito agitadas.

Jéfferson Balbino: Antes de finalizar a tradicional pergunta: Quais foram às melhores novelas que você já assistiu?  

Carlos Lombardi: Minha favorita absoluta foi “Mulheres de Areia”. Acho que é a melhor telenovela já escrita no Brasil (que foi exibida em 1973 na Tupi, refeita nos    anos 1990 na Globo às 18 horas e que, no ano passado, quando reprisada pela enésima vez no “Vale a Pena Ver de Novo”, foi reclassificada e perdeu o direito de ser uma programa livre! Depois de 40 anos de escrita pela primeira vez! É ridículo.

Jéfferson Balbino: Querido, muito obrigado por nos conceder essa entrevista. Foi uma honra conhecer melhor sua carreira, parabéns por tudo que tem feito em prol da nossa adorada teledramaturgia brasileira. Muito mais sucesso e um grande abraço!

 

Carlos Lombardi: Eu que lhe agradeço Jéfferson. Abraços!



Escrito por jéfferson às 04h48
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EM BREVE... NO MUNDO DOS FAMOSOS: Entrevista com MATEUS SOLANO



Escrito por jéfferson às 04h46
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Próximo Entrevistado: CARLOS LOMBARDI



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